Inspiração de nosso nome

07/11/2008

O TEXTO abaixo foi escrito pela sra. Maria Thereza Didier, em seu livro EMBLEMAS DA SAGRAÇÃO ARMORIAL – Ariano Suassuna e o Movimento Armorial 1970/1976, pela Editora Universitária UFPE. Ao término dessa leitura, minha mente fervilhava com idéias, muitas, onde podíamos criar jogos e elementos mais festivos perto de nossa Cultura do que simplesmente acompanhar tendências externas e trazê-las para cá sem qualquer tipo de filtro.

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“Foi sob o nome de “Romançal”, que Suassuna encamparia uma outra experiência de orquestra com a concepção armorial de música. Parecia que a luta pela denominação de Armorial para a criação de uma outra orquestra enfim terminara. Recordando a tradição medieval ibérica, e tentando estabelecer novamente o elo entre o popular e o erudito, o escritor Ariano Suassuna explicava a escolha do nome Romançal: “romance ou romanço, era aquele amálgama de dialetos do latim “mal-falado” e popular que deu origem às línguas românicas ou neo-latinas, inclusive o português, o provençal, o espanhol e o galego”. “Na Idade Média – acrescentou – convive uma cultura erudita, com livros escritos em Latim, e, ao ladodela, a poesia popular cantada em romance, isto é, em provençal, em espanhol, no dialeto galaico – português etc. É o tempo das cantigas e canções-de-gesta, compostas e cantadas sobre Carlos Magno e os Doze Pares da França, a Demanda do Santo Graal, o Cid, sobre Reis mouros como Abenémar, e os Cavaleiros cristãos como Galaaz (…). Logo, por economia, esses poemas, ao mesmo tempo líricos e épicos, escritos em romance passam a ser chamados somente de romances, e o nome se estende a toda a literatura narrativa em prosa ou em verso; são os romances de cavalaria, escritos em prosa, e as gestas, dos trovadores e troveiros, escritos em verso”.

A Orquestra Romançal Brasileira, rastreando as origens do romanceiro popular nordestino, encontrava o romanceiro popular ibérico. Mais uma vez a música brasileira erudita, com base nas raízes populares nordestinas, era traçada como ponto de partida. A “Romançal” apoaiva-se na experiência do Quinteto Armorial e tinha à frente o pesquisador e músico Antônio José Madureira.

Cussy de Almeida criticou a formação pouco clássica da Orquestra Romançal; numa alusão discreta e irônica ao escritor Ariano Suassuna, o músico ressaltou: “muita gente importante, de QI bastante alto, também pensa assim, esquecendo que música não se aprende na prática e sim nas bancas escolares, e assim mesmo com muito talento, força de vontade e excelentes mestres.

Mas o caso não era de meros “caprichos” pessoais. Havia propostas divergentes, que não se coadunavam num mesmo espaço de criação, ainda que estivessem sob a estrutura de uma “orquestra”. Em 18 de dezembro de 1975, a orquestra Romançal fazia sua estréia no Teatro Santa Isabel, em Recife. Enfatizando os instrumentos populares, o repertório era formado de quatro composições de Antônio José Madureira e três músicas de compositores anônimos do século XVI, de origem ibérica. A preocupação do escritor Ariano Suassuna com as “raízes” da cultura brasileira o faria insistir: “resta indagar se, assim não estamos lembrando demais a raiz ibérica, e deixando de lado a negra e a indígena, tão importantes para a cultura brasileira. A meu ver, não. Primeiro, quem diz ibérico, diz também mouro e judaico, como também recorda imediatamente a profunda influencia da cultura norte-africana na Península Ibérica. Depois, se a orquestra se chama Romançal, chama-se também Brasileira – e aí estão incluídos necessariamente o elemento mouro-africano e o indígena. Recorde-se que na Península Ibérica, a língua dos Ciganos é o romani, e que foram os Ciganos – como tão bem Garcia Lorca soube entender – os principais responsáveis pelo trabalho de revitalização e recriação do Romanceiro espanhol medieval, dando-lhe, neste século, uma nova interpretação”.

Reafirmando que o romanceiro popular nordestino teria sua origem no romanceiro popular ibérico, Suassuna lançava com o nome de “Romançal” a representação, em sua opinião, legítima da música armorial. Segundo o escritor, a proposta da música armorial era uma recriação dos cantares, toques de viola e rabeca dos cantadores do Nordeste brasileiro. Verticalizando as divergências de representações do que seria a música armorial, Suassuna exaltou: “no Movimento Armorial, o tempo já vai depurando aos poucos seus resultados, separando o puro do impuro, o verdadeiro do falso e do falsificado. No campo musical, não creio fazer injustiça a ninguém ao dizer que Antônio José Madureira a Orquestra Romançal Brasileira representam a verdadeira Música Armorial – cortante, despojada, forte e reluzente como as pedras do Sertão”.

O embate entre as posições do músico Cussy de Almeida e as do escritor Ariano Suassuna pode ser indiciado a partir da oposição entre as tradições populares as prioridades técnicas. As tradições populares, para o escritor, são a fonte de resistência cultural e preservadora da identidade nacional. O “ser castanho” (característica imanente ao povo brasileiro, decorrente da fusão cultura/raça), idealizado por Ariano Suassuna, apesar de caracterizar-se pela reunião de contrários, tende muito mais a uma dimensão dionisíaca do que apolínea, provindo daí o seu pendor para as festas, sua efusão criativa. Ao revés, representando a frieza reflexiva e disciplinadora de povos apolíneos, a prioridade técnica, para o escritor, é relacionada à dimensão de aspectos modernos e estrangeiros. Desse modo, as tradições populares expressam a espontaneidade do ser brasileiro, sendo, portanto, representantes autênticas da cultura brasileira, fazendo emergir o substrato do cadinho revelador da cultura nacional.”

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Padre Atanavídeo, o Sincero.

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